Capítulo 5 de 6

Estruturação de projetos de IA no Judiciário

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Projetos de IA: transforme uma ideia em mudança verificável

Organize problema, pessoas, dados, alternativas, implantação e valor público antes de escolher uma solução.

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escopoConceito 1 de 9

Problema, tarefa e solução

A tecnologia precisa responder a um problema institucional observável.

Exemplo

Exemplo: reduzir tempo de triagem é um problema; classificar documentos é uma tarefa possível.

Pense

Qual mudança será percebida por quem usa o serviço?

Como usar: percorra a trilha, observe o exemplo e use o laboratório abaixo para testar o conceito com dados sintéticos.

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CAPÍTULO 5 - ESTRUTURAÇÃO DE PROJETOS DE IA NO JUDICIÁRIO

INTRODUÇÃO

Nos quatro primeiros capítulos, percorremos fundamentos, modelos preditivos, visão computacional e Processamento de Linguagem Natural. Aprendemos a distinguir tarefa de decisão, avaliar dados e erros, acompanhar falhas de OCR e verificar a fidelidade de resultados textuais. Agora reuniremos esses conhecimentos em uma pergunta anterior à escolha do modelo: qual problema institucional merece ser enfrentado e como saberemos se a proposta produz valor público?

Um projeto frágil costuma começar com uma tecnologia: “vamos usar inteligência artificial generativa”, “precisamos de um classificador” ou “o tribunal deve ter um chatbot”. O nome da ferramenta ocupa o lugar da necessidade, e a equipe só depois procura dados e usos que a justifiquem. O caminho responsável é inverso. Primeiro se descrevem o processo atual, a evidência do problema, as pessoas envolvidas, as alternativas e as consequências dos erros. Somente então se define se há uma tarefa computacional útil e se o aprendizado de máquina (ML) acrescenta valor.

Neste capítulo, construiremos um Canvas de projeto de IA, isto é, um quadro sintético e revisável que conecta problema, atores, alternativas, dados, tarefa, sucesso, implantação e condição de parada. O Canvas não é autorização para desenvolver nem substitui análises jurídicas, de segurança, proteção de dados ou risco. Sua função é tornar hipóteses explícitas antes que tempo, orçamento e expectativas se cristalizem em uma solução.

Objetivos de aprendizagem

Ao final deste capítulo, você deverá ser capaz de:

  • distinguir problema institucional, tarefa computacional e solução sociotécnica;
  • formular uma teoria de mudança baseada em evidências e identificar usuários e pessoas afetadas;
  • comparar alternativas sem ML e definir uma linha de base;
  • alinhar dados, entrada, saída, abstenção e decisão humana à finalidade do projeto;
  • estabelecer critérios técnicos, operacionais, jurídicos, humanos e distributivos de sucesso e de não implantação;
  • planejar teste offline, modo sombra e piloto com responsáveis, documentação e retorno seguro, registrando e criticando a proposta em um Canvas de projeto.

💬 Pra começo de conversa!

Uma unidade recebe milhares de documentos e relata demora na triagem. Um fornecedor oferece um classificador “com 95% de acurácia”. Antes de contratar, o que falta saber?

Ainda não conhecemos os cinco tipos documentais, a frequência de cada classe, o tempo atual, a origem dos rótulos, o custo de cada erro, o desempenho humano, a possibilidade de melhorar formulários, a forma de revisão nem quem será afetado pelo roteamento. O percentual isolado não demonstra que o problema foi compreendido - e muito menos que a solução é adequada.

5.1 PROBLEMA INSTITUCIONAL, TAREFA E SOLUÇÃO

Esses três níveis respondem a perguntas diferentes:

Nível Pergunta Exemplo
Problema institucional Que dificuldade pública observável existe? A triagem manual de cinco tipos documentais consome tempo e gera retrabalho.
Tarefa computacional Que transformação de informação poderia ajudar? Sugerir uma classe para cada documento e abster-se em casos incertos.
Solução sociotécnica Como processo, pessoas e tecnologia atuarão em conjunto? Formulário revisado, classificador, interface de confirmação, fila de exceções, treinamento e monitoramento.

“Classificar documento” não é o benefício final. A classificação só poderá reduzir tempo ou retrabalho se a saída chegar no momento adequado, for compreendida, puder ser corrigida e produzir uma ação compatível com o fluxo. Uma previsão tecnicamente boa pode falhar por interface confusa, infraestrutura indisponível ou incentivo para aceitar sugestões sem revisão.

Uma formulação útil do problema contém:

  • processo e população em escopo;
  • evidência, período e fonte da medição;
  • volume, frequência e duração do gargalo;
  • usuários e pessoas afetadas;
  • consequência institucional;
  • resultado desejado, sem prescrever tecnologia;
  • limites: o que o projeto não fará.

Compare “queremos usar IA na triagem” com “entre janeiro e março, a unidade mediu o tempo entre recebimento e confirmação de cinco tipos documentais; deseja reduzir retrabalho sem aumentar encaminhamentos incorretos, mantendo confirmação humana”. A segunda redação é testável e permite concluir que outra solução pode ser melhor.

📝 Tome nota!

Um bom enunciado do problema permanece válido mesmo que a hipótese de usar ML seja rejeitada.

5.2 EVIDÊNCIA DO PROBLEMA E TEORIA DE MUDANÇA

Relatos profissionais ajudam a localizar uma dificuldade, mas não bastam para dimensioná-la. A equipe pode combinar observação do fluxo, amostra de casos, registros do sistema, entrevistas, tempos de execução, retrabalho, filas e reclamações. É preciso registrar período, unidade, método e limitações. Uma média global pode esconder picos, classes raras ou concentração da demora em grupos específicos.

Em seguida, constrói-se uma teoria de mudança: uma cadeia de hipóteses que explica como recursos e alterações de processo produziriam benefício público.

classificador + interface + capacitação
                  ↓
sugestão revisável no ponto de triagem
                  ↓
menos tempo e retrabalho, sem elevar erro relevante
                  ↓
fluxo mais tempestivo e acessível às pessoas afetadas

Cada seta precisa de evidência. O modelo pode sugerir corretamente, mas a interface não ser usada; o tempo pode cair, mas a correção aumentar; a unidade pode acelerar uma etapa que apenas transfere a fila para outra. A teoria deve incluir mudança de fluxo, capacitação, suporte e supervisão - não apenas o componente técnico.

💡 Para refletir!

Se a tarefa for executada perfeitamente, qual hipótese ainda pode impedir o benefício institucional?

Do problema ao valor público: cada seta representa uma hipótese a testar.

Descrição acessível: Fluxo em seis etapas, do problema medido ao valor público, com perguntas de verificação entre tarefa, solução sociotécnica, saída operacional, resultado institucional e benefício comprovado.

5.3 USUÁRIOS, PESSOAS AFETADAS E MAPA DE ATORES

Usuário é quem opera, consulta ou mantém a ferramenta. Pessoa afetada é quem sofre efeito direto ou indireto, ainda que nunca veja a interface. No exemplo, um servidor confirma a classe; uma equipe técnica mantém o serviço; a advocacia pode perceber um encaminhamento; a parte pode sofrer atraso ou correção. Gestores, órgãos de controle, fornecedores e equipes de atendimento também têm necessidades e poderes diferentes.

Ator Necessidade ou interesse Forma de participação Risco a observar
usuário interno clareza e ganho real no trabalho testar, corrigir e relatar aceitação automática ou carga adicional
pessoa afetada tratamento tempestivo e justo informar experiência e contestar erro invisível ou demora concentrada
gestor valor público e continuidade decidir recursos, expansão ou suspensão meta estreita de produtividade
equipe técnica dados, requisitos e manutenção desenvolver, testar e monitorar dependência de componentes e acesso insuficiente
controle e proteção de dados evidências e conformidade revisar documentação e impactos falta de logs, acesso ou responsáveis

O mapa deve ser produzido cedo e revisto quando a integração mudar. Um classificador de apoio pode ganhar efeito material se passar a encaminhar automaticamente documentos. Atores antes periféricos podem tornar-se diretamente afetados.

5.4 ACESSIBILIDADE, INCLUSÃO E CANAIS ALTERNATIVOS

Eficiência que cria barreira de acesso não constitui sucesso. O projeto deve considerar linguagem simples, tecnologia assistiva, deficiência, conectividade, alfabetização digital e atendimento humano. Interface acessível não é apenas contraste ou tamanho de fonte: inclui navegação por teclado, rótulos compreensíveis, leitura por tecnologia assistiva, tempo suficiente e mensagens de erro acionáveis.

Também se deve preservar canal alternativo quando a via digital não for adequada. Se a proposta depende de formulário padronizado, por exemplo, é preciso prever documentos produzidos com tecnologia assistiva, digitalizações, anexos excepcionais e atendimento a quem não consegue usar o canal principal. A equipe e os testes precisam incluir perspectivas diversas. A Resolução CNJ nº 615/2025 orienta diversidade, representatividade e interdisciplinaridade na composição das equipes e nas etapas do ciclo de vida.

5.5 ALTERNATIVAS SEM ML E LINHA DE BASE

Antes de construir um modelo, teste se o problema pode ser reduzido por:

  • eliminação ou reorganização de etapa;
  • campo obrigatório e metadado confiável;
  • melhoria de formulário ou orientação;
  • integração entre sistemas;
  • busca ou filtro;
  • regra determinística;
  • capacitação ou redistribuição de trabalho.

IA não deve compensar indefinidamente um processo mal desenhado. Uma regra pode ser preferível quando os critérios são estáveis, explícitos e auditáveis. Um formulário pode deslocar a identificação do tipo para a origem, com validações. A resposta pode combinar medidas: formulário para casos regulares, regra para padrões claros e modelo apenas para exceções autorizadas.

Linha de base é a referência contra a qual o projeto será comparado. Inclui o processo atual e, quando pertinente, uma solução simples. Para a triagem, devem-se medir tempo, volume, correção, retrabalho, variação entre unidades e desempenho por classe. Depois, uma regra ou modelo clássico pode formar outra base de comparação.

Sem linha de base, “90% de precisão” não informa se houve ganho. O processo humano poderia atingir resultado superior; o erro poderia estar concentrado na classe mais sensível; ou a economia técnica poderia ser anulada pelo tempo de conferência.

⚠ Atenção!

Alternativa sem ML não é etapa protocolar para justificar uma escolha já feita. Ela pode ser a decisão final.

5.6 DADOS, FINALIDADE, BASE JURÍDICA, SIGILO E REPRESENTATIVIDADE

Um inventário inicial de dados deve responder:

Dimensão Perguntas mínimas
origem e período De qual sistema, unidade e intervalo vêm os registros?
finalidade Por que cada campo é necessário à tarefa?
hipótese jurídica Qual fundamento autoriza cada operação de tratamento? Quem validará a análise?
proteção Há dado pessoal, dado sensível, segredo de justiça ou outro sigilo?
seleção Quais casos entram ou ficam fora? Que ausências isso produz?
rótulo Quem definiu a classe, com qual instrução e possibilidade de divergência?
representatividade Unidades, períodos, formatos e grupos relevantes estão cobertos?
ciclo Quem acessa, por quanto tempo, onde se armazena e como se elimina?

A finalidade vem antes da disponibilidade. O fato de um dado estar no processo ou ser acessível não o torna automaticamente necessário para treinamento. A Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) exige, entre outros princípios, finalidade, adequação, necessidade, qualidade, transparência, segurança, prevenção, não discriminação e responsabilização. A definição da hipótese jurídica e das medidas aplicáveis deve envolver as áreas competentes; o Canvas registra a análise e suas pendências, mas não a presume.

Representatividade também depende do uso pretendido. Uma base de uma unidade, em um período estável e com documentos nativamente digitais pode não representar outras unidades, mudanças de sistema ou acervos digitalizados. Os capítulos anteriores mostraram que OCR, formatos e práticas de registro alteram a entrada. A análise deve comparar cobertura, ausências e qualidade por condições relevantes, sem expor dados protegidos.

A ficha do conjunto de dados documenta motivação, composição, coleta, pré-processamento, usos, distribuição e manutenção (GEBRU et al., 2021). Ela não transforma uma base inadequada em adequada; permite que limites e responsabilidades sejam examinados.

5.7 ENTRADA, SAÍDA, ABSTENÇÃO E DECISÃO HUMANA

A tarefa precisa caber em uma frase operacional. Defina:

  • entrada: conteúdo autorizado que existirá no momento real;
  • saída: categoria, campo, ordenação ou texto e sua forma de apresentação;
  • momento: etapa do fluxo em que a saída estará disponível;
  • ação permitida: o que o sistema pode ou não acionar;
  • abstenção: quando encaminhar o caso sem forçar resposta;
  • decisão humana: quem revisa, com quais informações e autoridade;
  • uso proibido: reutilizações e decisões fora do escopo.

No caso sintético, a entrada pode ser texto e layout autorizados; a saída, sugestão de um dos cinco tipos, probabilidade estimada e trecho indicativo. Baixa evidência, formato desconhecido ou múltiplos tipos acionam abstenção. O servidor confirma ou corrige antes de qualquer roteamento. “Há humano no circuito” é insuficiente: é preciso prever tempo, fonte, competência, registro e possibilidade real de discordar.

5.8 CRITÉRIOS DE SUCESSO EM VÁRIAS CAMADAS

O sucesso deve refletir a teoria de mudança, não apenas o modelo.

Camada Exemplos de indicadores
técnica macro-F1, sensibilidade por classe, calibração, robustez e abstenção
operacional tempo, retrabalho, disponibilidade, fila e correções
jurídica aderência à finalidade, supervisão, rastreabilidade e contestação
humana e acessível compreensão, carga, autonomia, satisfação e barreiras de acesso
distributiva erros, abstenções, tempo e benefícios entre condições ou grupos relevantes
econômica e institucional custo total, interoperabilidade, portabilidade e continuidade

Cada indicador precisa de fonte, período, população, linha de base, limite e frequência de revisão. Macro-F1 dá peso igual às classes e ajuda quando as frequências diferem, mas não substitui a sensibilidade da classe cujo falso negativo seja grave. Calibração permite interpretar probabilidades estimadas; taxa de abstenção mostra quanto trabalho o sistema devolve. Nenhuma dessas medidas demonstra sozinha benefício público.

Métricas operacionais evitam otimizar o componente errado. Se a correção da sugestão leva mais tempo que a triagem manual, o desempenho do modelo não se converte em ganho. Se a fila fica menor na entrada e maior na revisão, houve deslocamento, não solução.

Critérios distributivos procuram concentração de efeitos. Não se deve inferir que a média representa todas as unidades, formatos, canais ou grupos. A escolha das comparações exige justificativa contextual, proteção de dados e análise jurídica; não se resume a uma lista universal de atributos.

5.9 ERRO RELEVANTE E CONDIÇÃO DE NÃO IMPLANTAÇÃO

Erros têm consequências assimétricas. Para cada classe e ação, pergunte:

  • o que ocorre com falso positivo e falso negativo?
  • o erro é visível e reversível antes do efeito?
  • pode concentrar-se em unidade, formato, canal ou grupo?
  • a interface facilita correção ou encobre a origem?
  • qual responsável pode suspender o uso?

A equipe deve escrever antes do piloto condições de não implantação ou interrupção: desempenho inferior à linha de base em classe crítica; ausência de base jurídica; impossibilidade de revisão ou correção; barreira de acessibilidade; segurança insuficiente; custo total desproporcional; ganho operacional irrelevante; ou dano concentrado sem mitigação adequada.

Essa decisão antecipada reduz o risco de manter o projeto apenas porque já houve investimento.

5.10 MVP, TESTE OFFLINE, MODO SOMBRA E PILOTO

Produto mínimo viável (MVP) é a menor configuração capaz de testar a hipótese principal com risco controlado. “Mínimo” não significa sem documentação ou segurança. A progressão recomendada é:

  1. medir processo e linha de base;
  2. avaliar alternativa sem ML;
  3. realizar teste offline em dados independentes;
  4. validar requisitos jurídicos, de segurança, privacidade e acessibilidade;
  5. operar em modo sombra;
  6. comparar saídas, revisões e tempos;
  7. executar piloto limitado;
  8. decidir expansão, ajuste, retorno ou encerramento.

No teste offline, saídas são comparadas com referências sem integrar o modelo ao fluxo. No modo sombra, o sistema recebe entradas do ambiente e registra sugestões, mas elas não afetam o trabalho. Isso revela latência, falhas de integração e mudança de distribuição, embora ainda não meça plenamente confiança e comportamento quando a sugestão fica visível.

O piloto introduz uso real em escopo delimitado. Deve fixar unidade, duração, população, treinamento, suporte, responsáveis, comunicação, indicadores, critérios de saída e rollback - o retorno seguro ao processo ou versão anterior. A expansão depende de evidência; não é continuação automática do cronograma.

Implantação progressiva: cada fase produz evidências para uma nova decisão.

Descrição acessível: Sequência da linha de base à expansão controlada, com portões após teste offline, modo sombra e piloto. Cada portão permite prosseguir, ajustar ou encerrar, e as fases integradas admitem retorno seguro.

5.11 EQUIPE INTERDISCIPLINAR E DOCUMENTAÇÃO

Estruturar o projeto exige conhecimentos sobre processo, Direito, dados, engenharia, segurança, proteção de dados, acessibilidade, contratação, auditoria e experiência das pessoas afetadas. A Resolução CNJ nº 615/2025 determina orientação à diversidade, representatividade e interdisciplinaridade das equipes e inclui participação nas etapas técnicas e negociais, tanto quanto possível.

Papéis devem ser nomeados: responsável pelo produto, área demandante, responsável técnico, validação jurídica, proteção de dados, segurança, acessibilidade, operação, monitoramento e autoridade para suspender. Um comitê genérico não substitui responsáveis por decisões concretas.

Documentos mínimos evoluem com o projeto:

  • enunciado do problema, escopo e teoria de mudança;
  • inventário e ficha de dados;
  • requisitos e avaliação preliminar de risco;
  • protocolo e relatório de testes;
  • cartão do modelo, manual e histórico de versões;
  • plano de supervisão, contestação, segurança e incidentes;
  • monitoramento, mudanças, rollback e descontinuidade.

Cartões de modelo descrevem uso pretendido, avaliação, desempenho e limitações em condições relevantes (MITCHELL et al., 2019). São úteis para transparência técnica, mas não substituem obrigações normativas nem a documentação do sistema completo. O modelo é apenas um componente.

5.12 FORNECEDORES, PORTABILIDADE, CONTINUIDADE E DÍVIDA TÉCNICA

Contratar transfere execução, não responsabilidade institucional. Antes de uma prova de conceito, pergunte:

  1. Qual modelo, versão, origem e licença são usados?
  2. Onde entradas, saídas, logs e cópias são processados e armazenados?
  3. Os dados são usados para treinamento? Qual retenção e eliminação?
  4. Quais controles de acesso, criptografia, isolamento e resposta a incidentes existem?
  5. É possível realizar teste local independente e obter logs exportáveis?
  6. Como mudanças de versão são comunicadas, testadas e recusadas?
  7. Dados, configurações e histórico são portáveis em formato documentado?
  8. Quais subcontratados e componentes externos participam?
  9. Como se asseguram acessibilidade, suporte, continuidade e modo manual?
  10. Qual é o custo total, inclusive integração, avaliação, auditoria e saída do contrato?

A Resolução CNJ nº 615/2025 prioriza interoperabilidade, flexibilidade de adaptação e não dependência tecnológica. Cláusulas, arquitetura e documentação devem permitir continuidade, auditoria autorizada, substituição de componentes e encerramento seguro.

Sistemas de ML acumulam dívida técnica em dados, dependências, configurações, interfaces, consumidores e ciclos de retroalimentação. Sculley et al. (2015) mostram que o código do modelo representa pequena parte do sistema e que mudanças podem gerar efeitos distantes. Por isso, o Canvas precisa prever manutenção, versões e proprietário de cada dependência - não apenas a entrega inicial.

5.13 CANVAS DO PROJETO

O Canvas abaixo é editável em Markdown. Preencha com frases curtas e verificáveis. Use “a definir” acompanhado de responsável e prazo quando ainda não houver evidência. Não preencha lacunas por suposição. A cada mudança de finalidade, população, integração, dados ou ação, crie nova versão.

Canvas editável

Bloco Campo Preenchimento
identificação nome, unidade, responsável e versão
problema processo atual, evidência, período, volume e consequência
escopo resultado desejado e o que fica fora
atores usuários, pessoas afetadas, participação e canais alternativos
alternativas mudança de processo, formulário, integração, regra e opção sem ML
linha de base indicadores atuais e solução simples de comparação
tarefa entrada, saída, momento, ação permitida e uso proibido
supervisão decisão humana, fonte para revisão, abstenção e correção
dados origem, período, finalidade, hipótese jurídica, sigilo e rótulos
qualidade cobertura, ausências, representatividade e documentação
sucesso métricas técnicas, operacionais, jurídicas, humanas e distributivas
erro e parada erro grave, reversibilidade, não implantação e suspensão
implantação offline, sombra, piloto, comunicação, suporte e rollback
governança inicial equipe, documentos, segurança, cadastro e análise de risco pendente
continuidade monitoramento, portabilidade, custos, dependências e descontinuidade

Como revisar o Canvas

Leia-o em três direções:

  1. Da esquerda para a direita: o problema justifica a tarefa e os dados?
  2. Da saída para o efeito: quem age, quem é afetado e como o erro pode ser corrigido?
  3. Do fim para o começo: os critérios de parada, implantação e monitoramento testam a teoria de mudança?

Procure frases vagas como “melhorar eficiência”, “dados do tribunal”, “revisão humana” ou “alta acurácia”. Substitua-as por processo, população, fonte, responsável, comparação e consequência. O Canvas concluído é uma hipótese estruturada, não uma promessa de resultado.

ESTUDO DE CASO - CLASSIFICAÇÃO ASSISTIDA DE CINCO TIPOS DOCUMENTAIS

Este caso é inteiramente sintético e serve apenas para aprendizagem.

Campo Exemplo parcialmente preenchido
problema Triagem manual de cinco tipos documentais gera retrabalho; medição do período e por classe ainda necessária.
resultado desejado Reduzir tempo e retrabalho sem aumentar encaminhamento incorreto.
fora do escopo Decidir mérito, urgência, autenticidade ou efeito jurídico do documento.
atores Servidores de triagem, equipe técnica, gestores, advocacia e partes; formas de participação a definir.
alternativas Revisar formulário e metadados; criar regras para padrões claros; manter processo manual como referência.
tarefa Classificação multiclasse com abstenção.
entrada Texto e layout autorizados; registrar se houve OCR.
saída Classe sugerida, probabilidade estimada e trecho indicativo.
ação humana Servidor confirma ou corrige antes de roteamento; modo manual permanece disponível.
dados Separação por processo e tempo; revisão de rótulos; finalidade, hipótese jurídica, sigilo, retenção e cobertura a validar.
linha de base Desempenho e tempo do processo manual e de regras simples.
sucesso Macro-F1, sensibilidade por classe, calibração, abstenção, correção, tempo, retrabalho e distribuição dos erros. Limites numéricos a definir após a linha de base.
risco preliminar A classificação de apoio supervisionada pode aproximar-se de BR1; finalidade, contexto e integração serão analisados no Capítulo 6.
implantação Offline → sombra → piloto em uma unidade → decisão documentada.
não implantar se Base jurídica ausente; revisão inviável; desempenho crítico inferior à linha de base; barreira de acesso; segurança insuficiente; ganho irrelevante.

O exemplo deixa lacunas deliberadas. Inventar um percentual, uma base jurídica ou uma representatividade não torna o projeto completo; apenas encobre o trabalho necessário.

ATIVIDADE PRÁTICA - PREENCHIMENTO E CRÍTICA DO CANVAS

Objetivo

Transformar um cenário do Judiciário em proposta inicial que demonstre alinhamento entre problema, atores, alternativa, tarefa, dados, sucesso e implantação.

Situação

Escolha um cenário: classificação de peças; extração de campos; agrupamento de documentos semelhantes; previsão de volume; pesquisa jurisprudencial; ou sumarização para apoio interno. Use somente situação profissional genérica ou dados inteiramente sintéticos.

Recursos necessários

  • Canvas da Seção 5.13;
  • conceitos dos capítulos 1 a 4;
  • nenhum dado real protegido.

Procedimento

  1. Descreva o problema sem citar tecnologia e indique a evidência necessária.
  2. Mapeie usuários, pessoas afetadas, participação, acessibilidade e canal alternativo.
  3. Compare processo atual, alternativa sem ML e solução simples.
  4. Defina entrada, saída, abstenção, ação permitida, uso proibido e decisão humana.
  5. Inventarie dados e marque análises jurídicas ou de segurança ainda pendentes.
  6. Escolha indicadores em pelo menos cinco camadas e relacione-os à linha de base.
  7. Nomeie o erro mais grave e três condições de não implantação.
  8. Planeje teste offline, modo sombra, piloto e rollback.
  9. Liste equipe, documentos e perguntas críticas a eventual fornecedor.
  10. Faça a revisão nas três direções e produza uma síntese de até 150 palavras.

Resultado esperado

Canvas preenchido, com lacunas identificadas; síntese do projeto; e decisão fundamentada entre prosseguir para análise de risco, reformular o problema ou adotar alternativa sem ML.

Questões para análise

  • A tarefa resolve o problema ou apenas produz uma saída interessante?
  • Os dados estarão disponíveis no momento real e são necessários à finalidade?
  • Que pessoa pode sofrer efeito sem operar a ferramenta?
  • O piloto pode ser interrompido sem prejudicar o serviço?

Feedback orientador

Um bom produto não precisa recomendar ML. Ele explicita evidências, alternativas e pendências; preserva opção manual; mede o fluxo, não só o modelo; e estabelece critérios capazes de interromper o projeto. Se problema, tarefa, dados e métricas não formarem uma cadeia coerente, retorne ao primeiro bloco em vez de acrescentar tecnologia.

AUTOAVALIAÇÃO

Questão 1 - Ponto de partida

Uma equipe escreve: “Implantar um grande modelo de linguagem para acelerar a unidade”. Reescreva o ponto de partida e explique qual confusão foi cometida.

Questão 2 - Atores

Em uma classificação assistida, apenas servidores usam a interface. Isso permite concluir que são as únicas pessoas relevantes ao projeto? Justifique.

Questão 3 - Linha de base

Um modelo atingiu macro-F1 de 0,88. Por que esse dado não demonstra, sozinho, que deve ser implantado?

Questão 4 - Abstenção e supervisão

Defina uma condição de abstenção e duas condições para que a revisão humana seja efetiva.

Questão 5 - Implantação

Qual diferença central existe entre teste offline, modo sombra e piloto?

Questão 6 - Fornecedor e continuidade

Cite quatro evidências ou condições que reduzam dependência de fornecedor e permitam continuidade ou saída segura.

RESPOSTAS COMENTADAS

Questão 1 - Resposta esperada

O ponto de partida deve descrever processo, evidência, população, consequência e resultado desejado, por exemplo: “A unidade medirá o tempo e o retrabalho na localização de informações para verificar se há gargalo e se uma intervenção pode reduzi-lo sem aumentar erro relevante”. A redação original confunde solução tecnológica com problema institucional. Revise a Seção 5.1.

Questão 2 - Resposta esperada

Não. Usuários operam o sistema, enquanto pessoas afetadas podem sofrer demora, encaminhamento ou correção sem ver a interface. Equipe técnica, gestores, advocacia, partes e órgãos de controle podem ter papéis distintos. Revise as Seções 5.3 e 5.4.

Questão 3 - Resposta esperada

Faltam desempenho por classe, erro relevante, calibração, linha de base humana e simples, impacto no tempo e retrabalho, acessibilidade, distribuição de efeitos, custos e requisitos jurídicos e de segurança. Métrica de modelo não comprova benefício do sistema. Revise as Seções 5.5, 5.8 e 5.9.

Questão 4 - Resposta possível

O sistema pode abster-se quando a probabilidade estimada não supera o limiar validado, o formato está fora do escopo ou há múltiplos tipos. A revisão exige, entre outras condições, acesso à fonte e ao contexto, tempo, competência, autoridade para discordar, registro e caminho de correção. Revise a Seção 5.7.

Questão 5 - Resposta esperada

Teste offline compara saídas sem integração ao fluxo; modo sombra processa entradas do ambiente, mas não influencia o trabalho; piloto introduz uso real em população e período limitados, com suporte, critérios e rollback. Revise a Seção 5.10.

Questão 6 - Resposta possível

Logs exportáveis; formatos documentados para dados e configurações; teste local independente; comunicação e recusa de mudança de versão; cláusulas de eliminação; documentação de componentes e subcontratados; interoperabilidade; modo manual; plano de transição; e custos de saída conhecidos. Revise a Seção 5.12.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste capítulo, começamos pelo problema, não pela tecnologia. Separamos dificuldade institucional, tarefa computacional e solução sociotécnica; usamos evidência e teoria de mudança para tornar explícito como uma saída poderia produzir valor público.

Distinguimos usuários de pessoas afetadas e incluímos acessibilidade e canais alternativos desde o escopo. Comparamos alternativas sem ML e linha de base, documentamos finalidade e condições dos dados e definimos entrada, saída, abstenção, ação humana e usos proibidos. O sucesso passou a reunir indicadores técnicos, operacionais, jurídicos, humanos, distributivos e institucionais.

Também estabelecemos erro relevante e condição de não implantação. Teste offline, modo sombra e piloto foram tratados como fases que produzem evidências para novas decisões, com rollback e possibilidade real de encerramento. Equipe interdisciplinar, documentação, portabilidade e manutenção completam o sistema que existe ao redor do modelo.

O Canvas consolidou essas relações e tornou visíveis as pendências. No próximo capítulo, retomaremos o mesmo projeto para classificar preliminarmente seus riscos e desenhar governança, proteção de dados, segurança, transparência, supervisão, contestação, resposta a incidentes, monitoramento e descontinuidade. Um projeto tecnicamente plausível ainda precisa demonstrar que pode ser usado de modo responsável.

TERMOS PARA O GLOSSÁRIO

Os termos Canvas de projeto, cartão do modelo, dívida técnica, linha de base, modo sombra, MVP, pessoa afetada, piloto, rollback, solução sociotécnica e teoria de mudança foram selecionados para o glossário cumulativo.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018. Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). Brasília, DF: Presidência da República, 2018. Disponível em: texto compilado da LGPD. Acesso em: 13 ago. 2026.

CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA (CNJ). Resolução nº 615, de 11 de março de 2025. Estabelece diretrizes para o desenvolvimento, utilização e governança de soluções desenvolvidas com recursos de inteligência artificial no Poder Judiciário. Brasília, DF: CNJ, 2025. Disponível em: Atos CNJ. Acesso em: 13 ago. 2026.

GEBRU, Timnit et al. Datasheets for datasets. Communications of the ACM, v. 64, n. 12, p. 86–92, 2021. DOI: 10.1145/3458723.

MITCHELL, Margaret et al. Model cards for model reporting. In: Proceedings of the Conference on Fairness, Accountability, and Transparency. New York: ACM, 2019. p. 220–229. DOI: 10.1145/3287560.3287596.

SCULLEY, D. et al. Hidden technical debt in machine learning systems. In: Advances in Neural Information Processing Systems, v. 28, 2015. p. 2503–2511. Disponível em: Google Research. Acesso em: 13 ago. 2026.

CHECKLIST DO CAPÍTULO

  • Introdução
  • Objetivos de aprendizagem
  • Problematização
  • Conteúdo
  • Exemplos
  • Elementos instrucionais
  • Aplicação prática
  • Estudo de caso
  • Atividade
  • Reflexão
  • Autoavaliação
  • Respostas comentadas
  • Considerações finais
  • Chamamento para o próximo capítulo
  • Fontes revisadas
  • Linguagem revisada

Descrição acessível: o texto é apresentado em HTML semântico, com títulos, tabelas e alternativas textuais. Os laboratórios interativos são complementos e não substituem a leitura.